1977: Boca Jrs x Cruzeiro Libertadores

sábado, 25 de abril de 2009

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Tecto extraído do blog PHD
Cruzeiro na Libertadores: 1977, a final
Por Jorge Santana | Em 22 de outubro de 2010
Mauro França

Como em 76, o adversário do Cruzeiro na final foi argentino. O Boca Juniors não era um time técnico como o do River Plate. Sem grandes craques, sua força residia, sobretudo, no jogo coletivo e na defesa. Jogava feio, tinha fama de retranqueiro, mas era eficiente. E também chegava a sua segunda decisão. Na primeira, catorze anos antes, fora batido pelo Santos de Pelé.

Na fase de grupos, o Boca eliminou o River e os uruguaios Peñarol e Defensor com 4 vitórias e 2 empates, 5 gols a favor e nenhum sofrido. Na semifinal, passou pelo Libertad do Paraguai e Deportivo Cali da Colômbia, com duas vitórias e 2 empates, 4 gols a favor e 2 sofridos. O Cruzeiro, como campeão, entrou apenas na semifinal. Eliminou Internacional e Portuguesa da Venezuela, com 3 vitórias e 1 empate, 7 gols a favor e 1 sofrido.

Se em 76 o ataque celeste fizera a diferença, em 77 o destaque era a defesa. Sob o comando de Iustrich, o Cruzeiro sofrera apenas 5 gols em 15 jogos. O meio de campo com Zé Carlos e Eduardo era firme. O problema era o ataque, que não engrenava. Elicarlos e Neca não empolgavam. Eli Mendes, efetivado na ponta-direita, era um batalhador, sem muita técnica. A força ofensiva se resumia aos lampejos de Joãozinho e chutes de Nelinho.

Por conta dos calendários confusos da época, mais uma vez o Cruzeiro esperou um bom tempo pelas finais. O último jogo da semifinal foi disputado em 31jul77. A primeira partida da final aconteceria 35 dias depois.

Nesse intervalo, o time fez três jogos pelo Campeonato Mineiro, incluindo um empate em 0×0 com o Atlético que garantiu o título do 2º turno, e dois amistosos, todos no Mineirão.

Numa terça-feira, 06set77, 60.000 xeneizes lotaram La Bombonera e fizeram o tradicional espetáculo das torcidas argentinas. Cânticos ininterruptos, chuva de papel sobre o gramado, clima de pressão total.

Contrariando sua vocação defensiva, o Boca começou pressionando. E definiu o jogo logo aos 4 minutos. Felman avançou pela esquerda, passou por Nelinho e, quase na linha de fundo, cruzou. Vanderlei e Veglio disputaram pelo alto, a bola passou por eles e sobrou para Mastrangelo, que bateu rasteiro para o meio da áre Morais tentou espanar, caiu sentado e, involuntariamente, ajeitou a bola para Veglio, que, esperto, tocou na saída de Raul. Boca, 1×0.

Daí em diante o Boca controlou o jogo como quis. Alternou momentos de pressão com recuos estratégicos para chamar o Cruzeiro para seu campo. O ataque celeste, inofensivo, pouco incomodou.

De acordo com Divino Fonseca, enviado especial de Placar, o Cruzeiro jogou muito mal: “Defesa confusa, onde só Raul se salvou; meio-campo perdido, limitado a alguns reflexos de Zé Carlos; ataque resumido a um só jogador, Joãozinho.”

Para Neca, alguns jogadores tremeram com a pressão da torcida. Para Pancho Sá, experiente capitão do Boca, substituído devido a uma distensão, “ o Cruzeiro não jogou tão mal. O Boca é que fez uma partida excepcional”.

Em reunião com os jogadores dois dias depois, já em BH, Yustrich disse que o time perdera o jogo no meio de campo. Eduardo Amorim contestou com veemência e culpou o esquema defensivo armado pelo treinador.

» Cruzeiro 0×1 Boca Juniors, 06set77, primeira partida das finais da Libertadores 1977, La Bombonera, Buenos Aires – Público: 60.000 – Renda: Cr$4.500.000,00 – Juiz: Roque Cerullo (Uruguai) – Gol: Veglio, 5 do 2º tempo. Cruzeiro: Raul Plassmann, Nelinho, Morais, Darci Menezes e Vanderlei Lázaro; Zé Carlos e Eduardo Amorim; Eli Mendes, Eli Carlos, Neca e Joãozinho. Tec: Yustrich / Boca Juniors: Hugo Gatti, Vicente Pernía, Francisco “Pancho” Sá (José Luiz Tesare), Roberto Mouzo e Alberto Tarantini; Rubén Suñe, Mário Zanabria; Ernesto Mastrángelo, Carlos Veglio, Daniel Pavón (Hector Bernabitti) e Darío Felman. Tec: Juan Carlos Lorenzo. Notas: 1. O Boca foi campeão metropolitano e nacional em 1976 e bicampeão da Libertadores em 77/78. Conquistou o Mundial Interclubes de 77 vencendo o Borussia Monchenglabdach. 2. Pancho Sá foi tetracampeão da Libertadores pelo Independiente em 72/75 e bi pelo Boca. Ganhou dois Mundiais, em 73 e 77 e disputou a Copa de 74. 3. Tarantini foi titular da Seleção Argentina campeã mundial em 78.
Na volta, a delegação celeste passou por um tremendo susto. Depois de 20 minutos de vôo, uma pane no trem de pouso obrigou o Boeing da Aerolíneas Argetinas a retornar ao aeroporto de Ezeiza. Por mais de uma hora o avião ficou dando voltas sobre Buenos Aires para gastar combustível e tentar um pouso de barriga. Depois de quatro tentativas frustradas, o trem de pouso finalmente funcionou e a aterrissagem foi feita sem problemas.

Com a vitória em casa, o Boca precisava apenas de um empate no segundo jogo, em BH. O Cruzeiro tinha que vencer para forçar o terceiro jogo. Mais de 52 mil torcedores, entre eles, 500 argentinos, foram ao Mineirão no domingo, 11set77.

Como era de se esperar, o Cruzeiro se lançou ao ataque desde o início. Pressionava a saída de bola dos argentinos, adiantando a marcação. O Boca se fechou na defesa e tentava surpreender nos contra-ataques. Quase conseguiu aos 13 minutos. Mastrangelo penetrou em diagonal da direita para o meio, recebeu passe de Zanabria, saiu na cara do gol e chutou baixo, no canto direito. Raul fez excelente defesa.

O Cruzeiro insistia no ataque, mas o nervosismo atrapalhava a conclusão das jogadas. Aos 21, Eli Mendes cruzou da direita e Neca completou para o gol. O peruano César Orozco anulou o lance marcando impedimento de Neca, sob os protestos da torcida.

Dois minutos depois, depois de boa troca de passes do ataque xeneize, Veglio recebeu na meia lua e bateu no ângulo esquerdo de Raul, que, de mão trocada, espalmou para escanteio, em mais uma grande defesa. Neca, duas vezes, Eduardo, chutando de fora da área, e Eli Carlos, já nos descontos, tiveram chances para marcar, sem aproveitá-las.

No segundo tempo, o Boca se fechou ainda mais, abdicando até mesmo dos contra-ataques. E procurou gastar o tempo fazendo uso de cera e catimba. O Cruzeiro foi para o tudo ou nada. Aos 14 minutos, um momento inusitado. Enquanto Nelinho se preparava para bater uma falta, Yustrich invadiu o campo e o abraçou efusivamente, para surpresa de todos.

O tempo corria, a pressão não dava resultado e o nervosismo tomava conta de todo o estádio. Yustrich trocou Elicarlos por Lívio e nada do gol sair. Os argentinos já anteviam o título. Até que aos 30 minutos, Eli Mendes foi derrubado na meia-direita. Nelinho foi para a cobrança e soltou uma bomba com o lado externo do pé direito. A bola, com muito efeito, passou pela barreira e entrou no ângulo esquerdo de Gatti, que nem esboçou reação. Cruzeiro, 1×0. No banco, Yustrich soltou um palavrão captado pelas câmeras da TV. A torcida finalmente explodiu de alegria.

No final do jogo, o técnico foi novamente abraçar Nelinho, revelando o que lhe falou no momento do abraço: “Eu não disse, rapaz, que você é o melhor jogador do mundo? Que não podia ficar desanimado? Que ia marcar o nosso gol?”



A vitória celeste forçou o terceiro jogo, marcado para a quarta-feira seguinte, 14set77, em Montevidéu. Naturalmente, os argentinos eram maioria entre os 60.000 presentes no estádio Centenário.

O tempo chuvoso deixou o gramado enlameado. Em um confronto entre duas equipes de características defensivas, o placar de 0×0 se manteve no 90 minutos e na prorrogação. O Cruzeiro pouco ameaçou, tanto que chutou a gol apenas quatro vezes nos 120 minutos. Para piorar, Nelinho, uma das principais armas ofensivas do time, deixou o campo contundido aos 15 minutos do 1º tempo, sendo substituído por Mariano.

Pela primeira vez na história da Libertadores, a decisão foi para a disputa de pênaltis. As nove primeiras cobranças foram convertidas. Mouzo, Tesare, Zanabria, Pernía e Felman marcaram para o Boca. Darci Menezes, Neca, Morais e Lívio fizeram para o Cruzeiro. A última cobrança da série coube a Vanderlei, um dos mais regulares do time, titular desde 1970. O chute saiu sem muita força, a meia-altura, no canto esquerdo de Gatti, que voou e espalmou.

Festa argentina. Pela primeira vez, o Boca conquistou o título da Libertadores. Em segundos, o sonho do bicampeonato celeste ruiu. Vanderlei ficou marcado pelo lance e desde carrega, injustamente, a culpa pela derrota.

» Cruzeiro 0(4)x0(5) Boca Juniors, 14set77, terceira partida das finais da Libertadores 1977, estádio Centenário, Montevideu, Uruguai. – Público: 60.000 – Renda: 553.977 pesos. – Juiz: Vicente Lobregat (Venezuela) . Na prorrogação, empate em 0×0. Na disputa de pênaltis, o Boca fez 5×4. Cruzeiro: Raul Plassmann, Nelinho (Mariano), Morais, Darci Menezes e Vanderlei Lázaro; Zé Carlos e Eduardo Amorim; Eli Mendes, Eli Carlos (Lívio), Neca e Joãozinho. Tec: Yustrich / Boca Juniors: Hugo Gatti, Vicente Pernía, José Luiz Tesare, Roberto Mouzo e Alberto Tarantini; Rubén Suñe, Jorge Benitez (Jorge Daniel Ribolzi) (Daniel Pavón); Ernesto Mastrángelo, Carlos Veglio, Mário Zanabria, e Darío Felman. Tec: Juan Carlos Lorenzo.
Encerrou-se ali o ciclo de três participações seguidas na Libertadores. Ninguém poderia imaginar que o Cruzeiro ficaria 17 anos sem disputar o maior torneio sul-americano.

PS: No domingo, 25set77, apenas 11 dias depois da derrota para o Boca, o Cruzeiro voltou a campo para o primeiro jogo da decisão do Mineiro-77. O Atlético venceu por 1×0 e seus torcedores e jogadores comemoraram o título por antecipação. Numa das mais sensacionais reviravoltas da história do clássico, o Cruzeiro venceu o segundo jogo, em 02out77, por 3×2, com três gols de Revetría. E o terceiro, em 09out77, por 3×1 (1×1 no tempo normal), conquistando o título.

RESUMO DA CAMPANHA:

» 7 jogos, 4 vitórias, 2 empates e 1 derrota. 8 gols a favor, 2 contra.
» Artilheiros: Nelinho (2), Eduardo, Eli Mendes, Neca, Eli Carlos, Joãozinho, Lívio (1).
» Jogadores (número de jogos): Raul (7), Nelinho (7), Morais (7), Darci Menezes (4), Vanderlei (7), Zé Carlos (7), Eduardo (7), Eli Mendes (7), Neca (6), Eli Carlos (7), Joãozinho (7), Ozires (4), Zezinho Figueroa (1), Mariano (1), Lívio (6), Valdo (3).
» Técnico: Yustrich.

1 comment

Sangre Azul disse...

Muito legal! Parabéns pelo trabalho de pesquisa e por haver compartilhado o conhecimento.
É uma pena que o Cruzeiro sempre se abata tanto após derrotas em jogos decisivos. Apequenou-se e ficamos 17 anos sem disputar a Liberta.
Mas não tem problema. Só pode lamentar derrotas em decisões quem chega a tal fase.
Abraços!

24 de dezembro de 2012 12:44